Nascer do sol

Nascer do sol
Não basta admirar e exaltar a grandeza da natureza. É preciso cuidar para que ela permaneça bela e possa ser também apreciada pelas gerações futuras.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A MENINA BORBOLETA



Em visita a certa cidade, recebi um estranho chamado. Uma senhora desconhecida precisava falar comigo e como se fosse uma coisa natural, dirigi-me para lá. Encontrei-a num casebre, em um bairro muito afastado e pobre, já muito doente e fraca. Ao seu lado, uma menina muito magrinha que deveria ter uns dois anos foi o motivo do chamado. Era seu desejo que eu levasse comigo aquela criança e dela cuidasse, pois não tinha mais forças para continuar a luta. Falou-me que vivia mudando de cidade, sempre reservada, para protegê-la.

Intrigada com a situação quis saber o que estava acontecendo então ela me disse que aquela criança era diferente, fazia “coisas”... Como transformar-se em objetos e apesar de não poder explicar ela aceitava e a protegia como uma guardiã. Como não sabia controlar os impulsos, por vezes as mutações aconteciam diante de estranhos. Há dias viviam naquele lugar, mas, a menina estava com outra criança quando viu um brinquedo e gostou. Transformou-se no brinquedo. A criança vizinha fugiu assustada e agora a pobre senhora temia que se a notícia se espalhasse algo de ruim acontecesse e ela não tivesse condições de defendê-la.

Ouvi todo o relato, atônita! Confesso que não acreditei numa só palavra, mas sabe Deus porque, diante do sofrimento daquela mulher fui incapaz de recusar ajuda. Sequer eu sei se era sua filha ou neta, mas era certo que a amava. Também não entendi “por que eu?”, mas na hora não questionei. Aproximei-me, a pequenina estendeu-me os minúsculos bracinhos e sussurrou “mamãe”. Abracei-a e ela grudou-se em mim como se fosse uma parte do meu corpo ou da minha alma.

Fugimos dali. Percebi que eu não estava só, algumas pessoas me acompanhavam embora não as conhecesse. Algum tempo depois chegamos a uma casa afastada, num lugar distante.

Telefonei para uma pessoa em quem confiava e pedi ajuda. Ela veio imediatamente com um acompanhante, estava disposta a ajudar, mas quando relatei os fatos, cética que era achou que eu estava louca e para nossa surpresa, enquanto discutíamos a menina literalmente dissolveu-se à nossa frente e em seu lugar, restou apenas uma maleta, exatamente igual à que trouxera. Estupefata, a pessoa, que eu considerava amiga, comunicou-se com alguém que descobri ser algo como um Instituto de Pesquisas, ou um Laboratório. Por certo tirariam a menina de mim, apesar das minhas súplicas e o pior, eu sabia, eu sentia que iriam maltratá-la.

Precisava encontrar um meio de salvá-la. De repente, enquanto meditava sobre a situação, uma linda borboleta colorida pousou ao nosso lado. Não sei bem explicar se era dia ou noite, mas, em meio ao escuro do céu, dois enormes círculos, um prateado e um dourado, jorravam luz em nossa direção. Sol e lua brilhavam juntos. Por que eu não me assustei com esse fenômeno? Olhei para a borboleta e para o céu. Era o sinal. Enfim a resposta às minhas preces. Se ela podia assumir a forma de um objeto, poderia transformar-se em um inseto. Algumas horas juntas foi o tempo que tivemos e eu a convenci a assumir a forma daquela borboleta e voar em direção à luz. Permanecemos unidas como se assim o fosse desde sempre. O imenso e inexplicável amor que sentia me dava forças para aquela separação e quando chegou a hora, pedi aos amigos que me ajudavam, para sorrateiramente, abrirem todas as janelas da casa. Então eu disse à borboleta, voe, voe alto minha menina, depois mamãe irá lhe encontrar. Ela voou. Nunca soube o seu nome. Sequer deram-me tempo de escolher um, mas decidi chamá-la apenas de Menina Borboleta.

Fátima Almeida
14/06/2015


 “Tinha um menino que saía todo dia,
E a primeira coisa que ele olhava e recebia com surpresa ou pena ou amor ou
Medo, naquela coisa ele virava,
E aquela coisa virava parte dele o dia todo ou parte do dia...
Ou por muitos anos ou
Longos ciclos de anos.”
  
(Walt Whitman (Folhas de Relva. Trad. De Rodrigo Garcia Lopes)


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011




                                                O RÁDIO

A minha relação com a música sempre foi algo singular. Em 1957, contando com apenas três aninhos, eu já tinha desenvoltura suficiente para subir no balcão do armazém do papai e cantar a plenos pulmões as músicas que faziam sucesso no rádio, para quem quisesse ouvir. Cantar e declamar poesias? Eu adorava! “Essa menina não se cria!” diziam alguns. E não é que me criei? E o rádio! Nossa!... Era enorme! Tinha caixa de madeira e acho que funcionava a pilha. Luz elétrica? Ninguém sonhava com isso por lá. Chiava que era uma beleza, mas era o único meio de comunicação que chegava até nós, naquele fim de mundo, que mais tarde, comentando Garcia Marques com uma amiga, achamos muito parecido com Macondo. Lá adiante darei mais detalhes dessa semelhança.
Acordávamos com um programa da PRA-4 – Rádio Sociedade da Bahia. O programa? VAMOS ACORDAR! O locutor eu não lembro bem o nome, mas acho que tinha o sobrenome Luna.
Durante o dia, todos se ocupavam dos seus afazeres. Eu ia para a Escola, brincava e quando a noite chegava era hora de ouvir o maior noticiário do país – A HORA DO BRASIL, cuja abertura nos deixava emocionados e só depois de alguns anos eu fiquei sabendo que se tratava de um trecho da ópera O GUARANI, de Carlos Gomes.
Foi através do rádio que tomamos conhecimento de muitos fatos importantes, como a trágica morte de JFK. Ora, eu só tinha oito anos e jamais esquecerei aquela cena. Junto ao rádio, minha mãe chorava enquanto ouvia a narração do funeral de John Kenned, enquanto Ray Charles fazia o fundo musical com a belíssima canção I CAN’T STOP LOVING YOU. E ali, sem entender o porquê do pranto da minha mãe, eu também chorei, embora não tivesse a mínima noção sequer do que dizia aquela música, que me soava tão triste. Hoje eu tenho consciência de que naquele dia, o mundo perdeu um grande estadista.
Muitos outros fatos chegaram até nós, dessa maneira. O Repórter Esso se encarregava de nos dar a conhecer em edições extra-ordinárias.
Chegou a Jovem Guarda! O Rei, Roberto Carlos lançava um LP todo final de ano. Como eu não tinha “radiola”, sequer uma vitrolinha portátil, contentava-me em copiar as letras e cantar suas canções maravilhosas, nem que para isso tivesse que acordar na madrugada para ouvi-las na Rádio Globo.
O futebol também fazia parte do meu domingo junto ao rádio, e mais tarde ainda “assisti” algumas edições das Olimpíadas tão maravilhosamente narradas por Luciano do Vale. Disse “assisti” porque era como se eu estivesse presente em cada competição, tal a qualidade da narração.

Estudava em uma cidade grande, mas eu não dispensava minhas famosas férias no lugarejo. Quando acabavam as aulas, lá estava eu de volta para mais uma temporada de aventuras, mas esta será outra história!

                                          Fatima Almeida

Notas:
           O RÁDIO NO BRASIL
Em 07 de setembro de 1922 o Brasil conhecia oficialmente o rádio. Na data, o Presidente da República Epitácio Pessoa apresentava a novidade aos brasileiros na solenidade de abertura da Exposição Comemorativa do Centenário da Independência realizada no Rio de Janeiro. Dentre os presentes dois baianos que mais tarde seriam alguns dos fundadores da Rádio Sociedade da Bahia: os Doutores Agenor Augusto de Miranda e Cesário de Andrade.
A Radio Sociedade da Bahia nasceu identificada como PRA-4, sigla de prefixo 4. O "A" era uma classificação para ordenar alfabeticamente as emissoras. Prefixo era uma convenção internacional que determinou para o Brasil as letras PR, sigla que prevaleceu durante quase duas décadas, depois sendo substituída pelas iniciais ZY acrescida da faixa de freqüência. A Rádio Sociedade da Bahia recebeu o prefixo número 4 por ter sido a quarta rádio a ter autorização oficial para funcionar.

A VOZ DO BRASIL
O programa foi criado por Armando Campos, amigo de infância de Getúlio, com a intenção de ajudar o seu amigo, colocando suas idéias para a população escutar, e assim serem a favor de seu governo. Passou ser transmitido em 22 de julho de 1935, durante o governo de Getúlio Vargas com o nome de "Programa Nacional", sendo apresentado pelo locutor Luiz Jatobá. De 1934 a 1962, foi levado ao ar com o nome de Hora do Brasil. Em 1938, já com o nome de Hora do Brasil programa passou a ter veiculação obrigatória, somente com a divulgação dos atos do Poder Executivo, sempre das 7 às 8 horas da noite, horário de Brasília. Em 1962, a partir da entrada em vigor do Código Brasileiro de Telecomunicações, o Poder Legislativo passou a ocupar a segunda meia hora do noticiário. Em 1971, por determinação do presidente Médici, o nome "Hora do Brasil" muda para "A Voz do Brasil".